O cerco as ideias

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O cerco as idéias é um recurso de dominação.

Uma ideia sem proteção é naturalmente revolucionária, como uma árvore que se expande até as raízes destruírem as cercas.
Coloca-se cercas no entorno de idéias. Elas, as idéias, estão lá, mas nitidamente reduzidas aos limites da estética, da moral e do aceitável por determinadas médias. As grandes árvores viraram bolsais, totalmente sob controle.
Trata-se de uma questão da liberdade.
É no campo das idéias que os homens semeiam a própria liberdade, pois apenas a partir do pensamento livre poderemos superar nossa evidente mediocridade animal.
As artes, a ciência, a filosofia, as manifestações de espiritualidade, desde que abertas ao mistério, carregam em si componentes incontroláveis, pois estão diretamente ligadas ao desejo de transcendência humana. Esse desejo é o que carregamos de mais poderoso e, a partir dele, tudo o que criamos como sociedade (para o bem e para o mal) passou a existir.
Mas temos medo da liberdade e necessidade de controle.  Tentamos determinar o que é arte e sobre ela colocamos um preço, domesticamos a ciência nos corredores da academia que nos “formam” e os saberes como posse dos intelectuais, a própria filosofia se reduziu a repetição atenuada (e embalada para consumo) do que pensadores do passado disseram. Uma cadeira apenas.
Na espiritualidade temos um poderoso exemplo:

A ideia de deus, sempre presente na humanidade (em várias formas) foi circunscrita ao “design” judaico/cristão (e seus derivados). Ideia potencialmente selvagem, domesticada, moralizada e sufocada em uma serie de dogmas e rituais, com direito a punições e benefícios aos que crerem ou deixarem de crer.
A fé deixou de ser um estado de busca e passou a ser uma condição de medo.
Deus tornou-se uma marca e os que falam em nome dela proprietários de milenares industrias. Manipulam o que não se pode manipular a apropriam-se do mais poderoso anseio humano, fonte de toda aspiração filosófica, ligado as mais profundas questões existenciais.
Sem perceber aceitamos elaborar para consumo e controle, manifestações legitimas de anseio à liberdade articuladas por questões práticas ligadas ao racismo e o direito de minorias,
A maneira como grupos políticos criam uma estética própria e se apropriam dos temas, estabelece uma cerca por onde as questões mais estruturantes não passam. Novamente as árvores selvagens viraram bonsais.
Reduzem os clamores por liberdade a bordões e transformam a luta humana em poder para si mesmos. Perde-se a habilidade de pensar por si próprio até que só haja o pensamento de massa, manipulado pelos grandes líderes.
Ideias minguadas até estarem prontas para serem consumidas.
Marcas (artistas, partidos políticos, militâncias) viram o simbolo de algo que pode passar pelas causas ligadas objetivamente aos discursos, mas que no fundo apontam para algo maior e presente em toda humanidade : o desejo de liberdade.
Na medida em que as gerações se sucedem renovamos a estética dos discursos, os focos acompanham as realidades de cada tempo, mas me parece que o pano de fundo de nossas questões permanece imutável: Vivemos a perplexidade de seres que percebem-se finitos ao mesmo tempo em que se sentem portadores de algo atemporal.
Desejamos transcender o casulo do corpo e das ideias e há milhares de anos desenvolvemos linguagens que em parte possam ilustrar e, quem sabe, nos oferecer algum conforto.
Nossa busca começa no seio da mãe, passa pelos amores, pelas paixões, pelos nossos vazios que não se cansam de buscar algum sentido.
O horizonte que nunca chega, mas que nos estimular a sempre caminhar.

Minha visão (e proposta) sobre a humanidade e o tempo em que vivemos

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Nos últimos 20 anos a humanidade ganhou infinitas possibilidades de se comunicar.
É como se uma janela tivesse sido aberta e, por ela, todos gritam o que antes mantinham restrito ao cubículo sem aberturas.
Toda revolução tecnologia rapidamente é apropriada pelo espirito do consumo, que se apressará em tornar a novidade em um ativo que gere muito lucro.
Mais do que isso: revolução de tamanha proporção jamais passaria ilesa pelos poderes que do seu jeito, adaptados a uma nova linguagem, trabalharão para criar uma infalível  ferramenta de manipulação das massas.
Empresas de comunicação, bancos, publicidade, políticos e religiosos estão entre os poderes que precisam das massas.
A massa não pensa, mas fala. Fala muito.
A somatória de falas vira ruído. Muitos ruídos e poucas ideias.
Quanto mais nos distraímos em nossos ruídos, mais raivosos e territoriais e menos abertos ao pensamento.
Ruídos de mais,  ideias de menos, ainda que esteticamente inovações aconteçam. Mas são estéticas e não representam novos conteúdos.
Para quem quiser desenvolver ideias (e se aprofundar nelas), será fundamental deixar de se impressionar com as gritarias (incentivadas o tempo todo) e, com calma, enxergar o espírito que as motiva.
Então perceberá que trata-se dos mesmos movimentos instintivos e rudimentares que sempre fizeram parte de nossa convivência animal, como poder, como marcação de território, como medo.
A verdade tão buscada provavelmente não será encontrada na somatória de ideias. Talvez ela seja parcialmente percebida diante da capacidade de aquietar-se e desenvolver uma linguagem superior, que não se apoie em recursos retóricos apenas, mas que principalmente seja conectada a atitudes diárias de humildade (e reconhecimento de não saber) , de solidariedade e de entendimento expandido sobre a experiencia humana na terra.
Não se apoiará apenas em evidencias cientificas, por saber que a ciência é uma linguagem restrita, mas evoluirá com seus movimentos e descobertas.
Não reclamará nenhuma religião como superior por entender que a espiritualidade é apenas uma tentativa de expressar o mistério que nos cerca e nos habita e, por isso mesmo, jamais traduzirá a contento o incognoscível.
Valorizará a experiência política como atos cotidianos que objetivam o bem estar comum enxergando seus representantes como porta vozes de um anseio maior e nunca como monarcas ungidos por deus.
Tentará valorizar o sentir, tanto quanto o pensar, atentos para a multiplicidade de comunicação que não vem apenas das tecnologias, mas do corpo, dos animais, da natureza, da rica experiência de compartilharmos um pequeno planeta que boia no meio do infinito.
Nesse ambiente de hiper comunicação, onde a era da pós verdade assume o imenso poder das narrativas ocas e tendenciosas, é urgente deixarmos de nos seduzir pelas muitas vozes (ruídos) e humildemente retomemos a consciência que, em matéria de desenvolvimento e sabedoria, continuamos como meros aprendizes.m

Cântico Inverso

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“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
 
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
 
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
 
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
 
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
 
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
 
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
 
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!” – (José Régio – Cântico Negro, 1926)

O olhar de cada era

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Se as palavras faltam, a gente diz como sente, como sabe, e tem sido assim em toda a história da humanidade. Criamos arquétipos baseados em nossa cultura e, com o tempo, os deuses, as crenças, as ideologias parecem virar absolutos inquestionáveis.

Depois os tempos mudam, outras pessoas, outras eras e novas palavras ilustrarão os mesmos sentimentos. Aqueles que jamais caberão nas palavras.

 

O conceito da reencarnação – Por Leonardo Siqueira

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Constantemente tenho a sensação que nos faltam palavras. Mais do que isso: Nos falta linguagem. Percebemos os fenômenos e tentamos traduzi-los conforme o que sabemos. Mas somos bichinhos que quase não sabem e as explicações ficam do nosso tamanho. Esse podcast com meu irmão Leonardo Siqueira lança outros olhares sobre um tema que pra muitos virou um sistema fechado e inquestionável: A reencarnação. Vale ouvir e , quem sabe, considerar outras possibilidades.