Pós verdade e a convicção dos fatos que não se veem

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Mais do que nunca é importante tratarmos do tema “pós verdade”. O termo não é novo. Foi registrado pela primeira vez em 1992, em um artigo na revista The Nation. Naquele tempo não havia internet e foi necessário quase trinta anos para que um conceito subjetivo se transformasse no lema de uma era. A internet não é a causa do fenômeno, mas funciona como catalisadora de sentimentos difusos cultivados por enormes parcelas da população que nutriram a vida inteira a legítima sensação de estarem sendo enganadas. Tudo o que podiam fazer era desconfiar, reclamar no trabalho e, de quatro em quatro anos, votar. Cenário ideal para uma revolta em processo de maturação que adiante explodiria. Foram décadas de ressentimento, de impotência, até que (felizmente) as redes dessem oportunidades para que as pessoas se comunicassem sem os filtros tradicionais. O bônus foi uma magnífica revolução nas comunicações e tudo de bom que acompanhamos até aqui, mas, como era de se esperar, o ônus não tardou: Na era da pós-verdade os fatos tem bem menos relevância do que as versões, desde que essas se conectem a um sentimento. Verdadeiras massas são mobilizadas (a esquerda e a direita) a partir da emoção, fenômeno já há muito explorado pela religião e pela publicidade. A diferença é que agora ficou muito mais fácil engajar para além do consumo. São prateleiras e prateleiras com as causas que mais se adequem as suas necessidades. Ganha quem for mais eficaz em fornecer grandes narrativas com poder de transformar anônimos em grandes agentes de transformação do mundo. Não importa a causa, o que vale é a sensação de relevância, de portar algo que a maioria não tem. É ingenuidade pensar que Trump e Bolsonaro fundaram esse mecanismo. De um jeito ou de outro a lógica da pós verdade existe há muito tempo. A diferença é que os dois presidentes, além de entenderem muito bem seu funcionamento, se beneficiaram da evolução tecnológica ao capturar o enraizado sentimento “ante sistema” que silenciosamente crescia na população, sempre colocada em segundo plano. Até então os agentes da pós-verdade agiam dentro de um esquema meio “analógico”, mobilizando sindicatos, grupos sociais e militantes. Se não contassem com a adesão da mídia, era só discurso para convertido. Isso explica em parte o movimento do pêndulo para a direita na última década. Se fosse a direita no poder há tanto tempo, seria a esquerda que hoje cultivaria com mais eficácia o fruto do ressentimento das massas, mobilizando-as com as próprias narrativas (como já tem acontecido). A chamada direita só saiu na frente aproveitando melhor as tecnologias, mas não se engane: Não há monopólios de virtudes ou maldades. Aliás, o olhar maniqueísta é necessário para fundamentar a sensação de que estamos no meio de uma guerra do bem contra o mal. O apocalipse nos espera em cada esquina. Alimentar esse sentimento, a existência de um inimigo constante, ainda que ele mude de nome, é essencial para manter o engajamento da tropa. O que definirá o que é bem e o que é mal variará conforme as crenças de cada indivíduo. Enxergar as nuances, sem paixões, sem ódios, pode funcionar como antídoto eficaz. Quanto aos fatos, eles não deixaram de ser importantes, mas têm se tornado cada vez mais secundários diante dos esforços para manipular a opinião pública em direção as convicções que mais beneficiem seus representantes. Isso explica em parte porque a imprensa tem perdido relevância. Jornalismo não interessa mais. O público quer show e uma narrativa que alimente seus antagonismos. É por isso que, mesmo diante de evidências claras, os militantes insistem apaixonadamente em argumentos irreais, trocando a racionalidade necessária pela crença irrevogável em um líder, uma narrativa, uma causa que dê sentido à existência. É a fé dos novos tempos, seguindo à risca o versículo bíblico que diz: “…Fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem.” E a verdade? Ela que de um jeito de se adequar.

Com qual consciência?

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Se as leis tem como objetivo apenas o controle, manterão os indivíduos (ou a sociedade) presos na infantilidade, sempre em dúvidas sobre o que é “certo” ou “errado”.O certo ou errado, sob a perspectiva das leis, está sujeito a cultura, ao tempo, as crenças, as experiências de quem os define. Vale para um país, uma empresa ou uma família. Tanto faz. As perspectivas alteram e as leis serão redefinidas.Leis são necessárias para ajudar na intermediação das relações entre os diferentes e devem ser promotoras de autonomia até que os indivíduos desenvolvam consciência. Os que se colocam na condição de “legisladores” deveriam manter em mente a seguinte pergunta: As leis que estabeleço geram maturidade ou criam dependência?A dependência facilita o controle e bloqueia a autonomia.Quanto mais uma sociedade (ou um indivíduo) evolui, menos necessário tutorá-los.Discussões sobre o “certo” ou “errado” seriam substituídas por outra questão: com qual consciência você é o que é?Parece simples, mas seria o início de uma magnífica revolução.

Fisgados pela dor

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Não buscamos justiça.
É o ódio que nos une quase sempre.
Aglutina-se tocando a ferida e apertando com violência até que saia pus. Aperta-se muito, muito!
O pus vaza, espalha sangue, raiva, ensandece as massas com suas tantas cicatrizes. Vociferam! Urram!
Descreio das causas que se alimentam do ódio, não importa os nomes que ganhem.
Sementes de ódio (em nome de justiça) produzirão frutos correspondentes.
É a guerra que nos une.
Nós, que precisamos de inimigos comuns que justifiquem a existência de nossos falsos semi deuses.
Nós, que buscamos a cura das dores no grito, no soco, na violência, na ilusão de que somos o bem combatendo o mal.
Não queremos nos enxergar! Não podemos.
Precisamos angustiadamente do mal, muito mais do que seria confortável admitir.
Nós e nossas guerras santas. Nós que sempre temos razão, que recusamos que somos maus também e, por isso mesmo, vivemos em busca de uma causa que justifique o imenso desconforto de existir. Negaremos com toda nossa força!
Temos medo e combatemos nosso medo no outro.
Os que nos manipulam nos oferecem as justificativas.
Eles estão acima disso. Só observam, só alimentam.
Fisgados em nossas feridas, nos movemos com punho em riste, bandeira enrolada, bordão na ponta da língua e hashtag nas redes sociais.
Não queremos a cura.
A cura nos tornaria livres.
A liberdade nos assusta.
Tudo o que queremos é algo que justifique nossas correntes, nosso medo, nossa dor.
E então o ódio nos aglutina e os inimigos nos une.

O cerco as ideias

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O cerco as idéias é um recurso de dominação.

Uma ideia sem proteção é naturalmente revolucionária, como uma árvore que se expande até as raízes destruírem as cercas.
Coloca-se cercas no entorno de idéias. Elas, as idéias, estão lá, mas nitidamente reduzidas aos limites da estética, da moral e do aceitável por determinadas médias. As grandes árvores viraram bolsais, totalmente sob controle.
Trata-se de uma questão da liberdade.
É no campo das idéias que os homens semeiam a própria liberdade, pois apenas a partir do pensamento livre poderemos superar nossa evidente mediocridade animal.
As artes, a ciência, a filosofia, as manifestações de espiritualidade, desde que abertas ao mistério, carregam em si componentes incontroláveis, pois estão diretamente ligadas ao desejo de transcendência humana. Esse desejo é o que carregamos de mais poderoso e, a partir dele, tudo o que criamos como sociedade (para o bem e para o mal) passou a existir.
Mas temos medo da liberdade e necessidade de controle.  Tentamos determinar o que é arte e sobre ela colocamos um preço, domesticamos a ciência nos corredores da academia que nos “formam” e os saberes como posse dos intelectuais, a própria filosofia se reduziu a repetição atenuada (e embalada para consumo) do que pensadores do passado disseram. Uma cadeira apenas.
Na espiritualidade temos um poderoso exemplo:

A ideia de deus, sempre presente na humanidade (em várias formas) foi circunscrita ao “design” judaico/cristão (e seus derivados). Ideia potencialmente selvagem, domesticada, moralizada e sufocada em uma serie de dogmas e rituais, com direito a punições e benefícios aos que crerem ou deixarem de crer.
A fé deixou de ser um estado de busca e passou a ser uma condição de medo.
Deus tornou-se uma marca e os que falam em nome dela proprietários de milenares industrias. Manipulam o que não se pode manipular a apropriam-se do mais poderoso anseio humano, fonte de toda aspiração filosófica, ligado as mais profundas questões existenciais.
Sem perceber aceitamos elaborar para consumo e controle, manifestações legitimas de anseio à liberdade articuladas por questões práticas ligadas ao racismo e o direito de minorias,
A maneira como grupos políticos criam uma estética própria e se apropriam dos temas, estabelece uma cerca por onde as questões mais estruturantes não passam. Novamente as árvores selvagens viraram bonsais.
Reduzem os clamores por liberdade a bordões e transformam a luta humana em poder para si mesmos. Perde-se a habilidade de pensar por si próprio até que só haja o pensamento de massa, manipulado pelos grandes líderes.
Ideias minguadas até estarem prontas para serem consumidas.
Marcas (artistas, partidos políticos, militâncias) viram o simbolo de algo que pode passar pelas causas ligadas objetivamente aos discursos, mas que no fundo apontam para algo maior e presente em toda humanidade : o desejo de liberdade.
Na medida em que as gerações se sucedem renovamos a estética dos discursos, os focos acompanham as realidades de cada tempo, mas me parece que o pano de fundo de nossas questões permanece imutável: Vivemos a perplexidade de seres que percebem-se finitos ao mesmo tempo em que se sentem portadores de algo atemporal.
Desejamos transcender o casulo do corpo e das ideias e há milhares de anos desenvolvemos linguagens que em parte possam ilustrar e, quem sabe, nos oferecer algum conforto.
Nossa busca começa no seio da mãe, passa pelos amores, pelas paixões, pelos nossos vazios que não se cansam de buscar algum sentido.
O horizonte que nunca chega, mas que nos estimular a sempre caminhar.

Minha visão (e proposta) sobre a humanidade e o tempo em que vivemos

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Nos últimos 20 anos a humanidade ganhou infinitas possibilidades de se comunicar.
É como se uma janela tivesse sido aberta e, por ela, todos gritam o que antes mantinham restrito ao cubículo sem aberturas.
Toda revolução tecnologia rapidamente é apropriada pelo espirito do consumo, que se apressará em tornar a novidade em um ativo que gere muito lucro.
Mais do que isso: revolução de tamanha proporção jamais passaria ilesa pelos poderes que do seu jeito, adaptados a uma nova linguagem, trabalharão para criar uma infalível  ferramenta de manipulação das massas.
Empresas de comunicação, bancos, publicidade, políticos e religiosos estão entre os poderes que precisam das massas.
A massa não pensa, mas fala. Fala muito.
A somatória de falas vira ruído. Muitos ruídos e poucas ideias.
Quanto mais nos distraímos em nossos ruídos, mais raivosos e territoriais e menos abertos ao pensamento.
Ruídos de mais,  ideias de menos, ainda que esteticamente inovações aconteçam. Mas são estéticas e não representam novos conteúdos.
Para quem quiser desenvolver ideias (e se aprofundar nelas), será fundamental deixar de se impressionar com as gritarias (incentivadas o tempo todo) e, com calma, enxergar o espírito que as motiva.
Então perceberá que trata-se dos mesmos movimentos instintivos e rudimentares que sempre fizeram parte de nossa convivência animal, como poder, como marcação de território, como medo.
A verdade tão buscada provavelmente não será encontrada na somatória de ideias. Talvez ela seja parcialmente percebida diante da capacidade de aquietar-se e desenvolver uma linguagem superior, que não se apoie em recursos retóricos apenas, mas que principalmente seja conectada a atitudes diárias de humildade (e reconhecimento de não saber) , de solidariedade e de entendimento expandido sobre a experiencia humana na terra.
Não se apoiará apenas em evidencias cientificas, por saber que a ciência é uma linguagem restrita, mas evoluirá com seus movimentos e descobertas.
Não reclamará nenhuma religião como superior por entender que a espiritualidade é apenas uma tentativa de expressar o mistério que nos cerca e nos habita e, por isso mesmo, jamais traduzirá a contento o incognoscível.
Valorizará a experiência política como atos cotidianos que objetivam o bem estar comum enxergando seus representantes como porta vozes de um anseio maior e nunca como monarcas ungidos por deus.
Tentará valorizar o sentir, tanto quanto o pensar, atentos para a multiplicidade de comunicação que não vem apenas das tecnologias, mas do corpo, dos animais, da natureza, da rica experiência de compartilharmos um pequeno planeta que boia no meio do infinito.
Nesse ambiente de hiper comunicação, onde a era da pós verdade assume o imenso poder das narrativas ocas e tendenciosas, é urgente deixarmos de nos seduzir pelas muitas vozes (ruídos) e humildemente retomemos a consciência que, em matéria de desenvolvimento e sabedoria, continuamos como meros aprendizes.m